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Entendendo os diversos tipos de financiamento para sua startup: de bootstrapping a investimento anjo

Shutterstock - captação investimento*

Levantar capital para tirar sua ideia do papel ou para alavancar o desenvolvimento de sua startup é sempre um desafio, mas a boa notícia é que há diversas formas de investimento à sua disposição – a depender do estágio da sua empresa.

Se você não conseguir financiar seu negócio com seu próprio capital (bootstrapping), pode contar com o auxílio financeiro de familiares e de gente que já lhe conhece e confia no seu potencial (os chamados três Fs, “Friends, Family and Fools”). Se você já tiver um modelo viável de negócios, pode contar com aporte de capital de um investidor anjo. Outra opção é inscrever sua startup em uma aceleradora ou incubadora que invistam nas empresas selecionadas em troca de participação societária. Em estágio mais avançado, você ainda pode buscar investimento de fundos de venture capital.

Para acertar na escolha da modalidade de financiamento, é fundamental entender quais são as diversas alternativas de investimento existentes para sua startup e conhecer bem suas vantagens e desvantagens.

Resumimos abaixo algumas vantagens e desvantagens de três desses tipos de financiamento: o bootstrapping, os três Fs e o investimento anjo, recentemente regulado pela Lei Complementar n. 155/2016:

  • (1) Bootstrapping – O bootstrapping, ou founder investment, nada mais é que o investimento do próprio empreendedor na sua ideia. Nesse tipo de financiamento, o empreendedor tira dinheiro da poupança, usa seus recursos próprios ou pega empréstimos pessoais para lançar seu negócio.
    • (a) Benefícios – A grande vantagem do bootstrapping é que você poderá contar com a disponibilidade imediata de recursos para lançar sua startup sem sentir a pressão e o medo de perder o dinheiro de outra pessoa se o negócio não der certo. Além disso, você poderá tocar seu negócio—pelo menos inicialmente—sem ter que dar satisfação a nenhum credor. Uma terceira vantagem é que sua disposição de investir seu próprio dinheiro no negócio mostra para os investidores que você tem skin in the game, isso é, que está investido no sucesso do negócio e focado em fazer a empresa dar certo.
    • (b) Desafios – Como você vai investir seu próprio capital e, em tese, não tem que dar satisfação a ninguém, o mais difícil é garantir que você terá a disciplina necessária para suar pelo sucesso do negócio. Uma maneira de encorajar sua disciplina e evitar que você perca o foco no processo e no resultado da empresa é comprar sua participação na sociedade. Isso serve para evitar confusão entre a figura do empreendedor e a do empresário, e há várias maneiras de garantir essa separação: por exemplo, para evitar confusão patrimonial, o empreendedor pode fazer o investimento na forma de um depósito único em conta separada da empresa; para garantir que a sociedade será dona de seus recursos e produtos, o empreendedor pode transferir à startup toda a propriedade intelectual desenvolvida durante a empreitada. Mas, se seu problema é aquele identificado pelos Mamonas Assassinas, “Money que é good nóis num have”, então você pode tentar a segunda opção de investimento – os três Fs.
  • (2) Friends, Family and Fools – O famoso triplo F, “Friends, Family and Fools” diz respeito à ajuda financeira obtida de familiares, amigos (e tolos) que já lhe conhecem e confiam no seu potencial e na sua ideia.
    • (a) Benefícios – Como seus amigos e parentes gostam de você, obter financiamento por essa via é relativamente fácil e, muitas vezes, não requer a apresentação de um plano de negócios detalhado, um produto mínimo viável ou um pitch Além disso, é provável que seus parentes e amigos exijam um menor retorno ao investimento feito na sua startup que um investidor desconhecido (seja investidor anjo, uma aceleradora, ou outros métodos de financiamento).
    • (b) Desafios – Pegar empréstimo com parentes e amigos pode criar uma enorme desvantagem: o envolvimento pessoal de pessoas queridas gera uma forte pressão emocional sobre o empreendedor, que pode acabar tomando más decisões gerenciais em função do medo de perder o dinheiro de parentes e amigos. Outro problema é a informalidade normalmente envolvida nesse tipo de investimento. É importante deixar claro, preferencialmente por um contrato escrito, a que título foi feito o investimento – trata-se de um empréstimo comum, ou de um aporte de capital pelo qual seu parente ou amigo receberá algum tipo de interesse societário na sua empresa?
  • (3) Investimento anjo – Modalidade de financiamento na qual um terceiro (pessoa física) utiliza seu capital próprio para investir em um negócio original que tenha alto potencial de crescimento e retorno financeiro. Essa modalidade de investimento foi recentemente regulada pela Lei Complementar n. 155/2016, que trouxe maior segurança para o investidor anjo ao blindá-lo contra a responsabilização pessoal por perdas financeiras e dívidas da empresa investida.
    • (a) Benefícios – Além de não ter que encontrar com seu financiador em toda festa de família, essa modalidade de investimento costuma oferecer não somente o auxílio financeiro necessário para o lançamento ou desenvolvimento da empresa, mas também a expertise de mercado do investidor. Um investidor anjo experiente contribui com o desenvolvimento do modelo de negócios da empresa investida, oferece boas oportunidades de networking e orienta na condução do negócio. A nova lei do investimento anjo também trouxe um benefício extra para a startup investida. Agora, a empresa que recebe investimento anjo não é mais desqualificada do SIMPLES nacional e pode, então, continuar a receber os benefícios tributários do SIMPLES.
    • (b) Desafios – Atrair um investidor anjo exige esforço consideravelmente maior que atrair financiamento de amigos e familiares. Além de ter um plano de negócios detalhado, é importante já ter um produto mínimo viável para demonstrar ao investidor o potencial de crescimento e de retorno da empresa. Não basta que o investidor anjo conheça muito bem a sua proposta de negócio. É imprescindível que você estude seu potencial investidor anjo, descubra qual é sua reputação no mercado e qual é o estilo de trabalho do investidor, e converse com outras empresas que já trabalharam com esse investidor. Ainda que a proposta de investimento pareça boa, se o perfil do investidor anjo não for o que você está buscando (muito controlador, difícil de lidar, interferência excessiva no negócio…), é melhor avaliar outras modalidades de investimento, como uma aceleradora ou incubadora que invistam nas empresas aceleradas/incubadas e ainda oferecem espaço de networking, mentoria e aprendizado.

Essas são apenas algumas considerações sobre três dos principais tipos de financiamento de empresas que estão à disposição do empreendedor. Em outros posts trataremos das vantagens e desvantagens de se juntar a uma aceleradora ou incubadora e das diferenças entre elas, das peculiaridades do venture capital, e das novidades trazidas pela Lei Complementar n. 155/2016 ao cenário do investimento anjo.

 

*Fonte da imagem: Shutterstock

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Os mistérios da contratação além-mar

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A escolha de uma equipe alinhada à estratégia do negócio, competente e dedicada é fundamental para o sucesso de qualquer empreendimento. E, quando essa seleção criteriosa de profissionais esbarra na limitação orçamentária da empresa, uma alternativa interessante é expandir o leque de escolhas para além das fronteiras tupiniquins.

Certamente, é possível encontrar profissionais qualificados em países como Índia, Israel e Paquistão, locais onde os valores salariais são notadamente menores que os praticados no Brasil.

São várias as maneiras utilizadas para contratar profissionais estrangeiros para prestar serviço à distância. Se a contratação for destinada, por exemplo, ao desenvolvimento de algum produto, uma primeira alternativa é abordar uma empresa local de TI através da qual você poderá contatar e contratar os trabalhadores já vinculados à folha de pagamento daquela empresa para o seu projeto.

A segunda opção é bem mais complexa: abrir uma empresa no local, contratar um representante nativo, alugar/comprar imóvel para funcionar como sede, obter autorização para funcionamento e, por fim, iniciar as buscas para contratação in loco.

A terceira e última alternativa, embora seja mais simples que as anteriores, é mais arriscada: digitar palavras-chave no google (ex: “hire indian developers”, “indian software developers”, etc.), acessar alguns dos diversos sites que aparecem, fazer orçamento e contratar.

Qualquer seja a opção escolhida, é importante focar em uma entrevista bem feita e, principalmente, desenvolver um modelo de contrato que seja capaz de fechar todas as lacunas que possam surgir dessa contratação, como forma de resolução de conflitos (Será judicial? Onde? Qual idioma?), regras de sigilo e confidencialidade, regras de non-compete, etc.

Outra questão que, embora não seja jurídica, é igualmente relevante para o bom andamento da contratação é selecionar alguém que seja fluente no inglês para liderar o processo de entrevista e contratação. Preferencialmente, avalie com seu advogado a possibilidade de um contrato bilíngue para facilitar a compreensão e execução futura.

Como definir a estrutura de investimentos adequada para sua startup: equity ou convertible debt?

Principalmente em tempos de crise, a preocupação em conquistar investimentos para iniciar ou alavancar sua startup assume proporção ainda mais complexa.

EQUITYvsDEBTNesse cenário, inseguranças sobre o melhor tipo de estrutura para receber esses novos recursos contribuem para a dor de cabeça do empreendedor, que precisa refletir, desde o início, sobre a melhor forma de entrada desse investimento: equity ou convertible debt?

A decisão sobre o tipo de estrutura de aporte de investimentos é essencial para garantir o sucesso da captação presente e de futuras rodadas de funding, e essa decisão deve levar em conta o estágio da startup, o tipo do negócio, o perfil do investidor e da equipe, etc.

No caso do equity, a aquisição de participação societária é direta, isso é, o investidor vira sócio da startup a partir do momento que investe nela. Essa modalidade de investimento por aquisição direta de participação societária é usado para companhias abertas (S/A), que emitem novas ações em troca do aporte de capital que receberão do investidor.

Em contrapartida, esse se torna sócio da startup investida, compartilhando os lucros e os riscos do negócio de maneira direta. Por esse motivo, é comum que o investidor participe das reuniões do Conselho, manifeste-se na tomada de decisões estratégicas e efetivamente contribua para o crescimento da empresa investida e alcance de suas metas.

Nesse tipo de contrato de investimento, é comum a inclusão de cláusulas de bloqueio/proteção para evitar a exposição do investidor e mitigar potenciais conflitos que possam surgir da relação em sociedade. Contudo, vale lembrar da importância de uma assessoria jurídica capacitada no momento de validar as cláusulas de bloqueio como forma de garantir que as regras pactuadas não se tornem obstáculos à atividade empresarial.

Por sua vez, a estruturação do aporte de investimentos na forma de convertible debt traduz-se em uma dívida conversível em participação societária (convertible note). No caso da dívida conversível, o investidor aloca capital na sociedade na forma de um empréstimo e, em troca, receberá debêntures que poderão ser convertidas em participação societária posteriormente (seja na data do vencimento do empréstimo ou mesmo antes do prazo final), quando a empresa se tornar uma companhia aberta (S/A). George Deeb, em seu artigo publicado no site da Forbes, define a convertible note como uma figura híbrida cuja natureza é de dívida até que, no futuro, ela pode ser convertida em equity.

No caso de aporte de capital via convertible debt, enquanto a debênture não se efetivar em participação societária, o investidor não tem, em regra, direito de manifestação nas decisões estratégicas da empresa investida ou poder de gestão na startup.

Para startups em estágio inicial, é muito provável que a estrutura de uma S/A onere sobremaneira o desenvolvimento do negócio e, por isso, a emissão de ações para a captação de investimento na modalidade de equity pode não ser a forma mais adequada para receber funding. Se essa for a realidade do seu empreendimento, possivelmente a melhor forma de captar recursos será por debt.

Além de ser mais simples a estruturação do sistema de debt, essa forma de receber aporte de capital também é vista positivamente pelo investidor que não tem interesse imediato em participar da sociedade e assumir diretamente os riscos do negócio.

Ao avaliar o melhor modelo de estrutura de investimentos, é importante considerar também qual é a relação existente entre a startup (membros da equipe) e o investidor: as partes já se conhecem de outras ocasiões? Todos estão cientes do estilo de trabalho e de gestão do investidor e dos administradores da empresa investida?

Essa análise é vital para o sucesso da empreitada, haja vista que, no caso do equity, o investidor torna-se desde logo sócio da empresa. Se as partes não tiverem segurança para trabalhar em sociedade com o investidor, pode ser mais interessante adotar o sistema de debt para que o investidor possa conhecer mais profundamente o estilo da equipe e o negócio da empresa e vice versa.

Sobre parcerias, contratos mal feitos e disputas judiciais – case study: The Cambridge Satchel Company vs. Zatchels

Estudo de caso: The Cambridge Satchel Company vs. Zatchels

Pensando em opções para viabilizar o pagamento das despesas escolares de seus filhos, a britânica Julie Deane lembrou-se das bolsas (satchels) que amava usar quando era jovem. Acreditando que uma remodelagem dessas bolsas clássicas parecia uma boa sacada, Julie e sua mãe criaram a The Cambridge Satchel Company, cujo QG ficava na própria cozinha da casa de Julie.

Em menos de um ano, a produção de bolsas passou de 3 para 100 unidades por semana, e, em quatro anos, a produção semanal chegou a 3.000 bolsas, com vendas em 86 países. Diante da necessidade de ampliar a produção para acompanhar o ritmo de crescimento da demanda, Julie viu-se obrigada a reforçar o time de manufaturadores e, para tanto, contratou a manufatureira Leicester Remedials & Sewing.

Pouco tempo depois da contratação da Leicester Remedials & Sewing, bolsas suspeitosamente similares às de Julie começaram a aparecer no mercado britânico: as Zatchels. Desconfiada, Julie descobriu que quem estava por trás dessa marca era ninguém menos que seus parceiros recém-contratados.

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Alegando rompimento contratual e uso indevido do design e matéria prima de seus produtos (infração aos direitos de PI), Julie foi à justiça britânica buscar compensação pelos danos supostamente causados pela Leicester. A disputa foi resolvida em 2012 por mediação, e, como parte do acordo entre as partes, Leicester Remedials & Sewing pagou à Cambridge Satchels determinada quantia não divulgada.

Embora esse acordo via mediação não implique assunção de culpa por Leicester Remedials & Sewing ou mesmo imputação de responsabilidade pelos danos alegados por Julie, o caso desperta a importância de se manter um aparato contratual conciso e bem redigido para garantir que ambas as partes terão seus direitos e deveres garantidos durante toda a relação negocial.

Certamente, Julie não teria enfrentado tais problemas se tivesse incluído no contrato com a manufaturadora algumas cláusulas importantes para a proteção de seu negócio, tais como: cláusula de confidencialidade, cláusula de proteção à propriedade intelectual da empresa, termo de não-concorrência (non-compete), dentre outras.

Especificamente no que se refere a essas cláusulas de proteção, um aspecto fundamental a se considerar durante a elaboração e negociação do contrato é o prazo. Identificar o período pelo qual tais restrições devem valer faz parte da estratégia de cada empresa, e é sempre aconselhável consultar um advogado especializado para assessorar na elaboração dos modelos contratuais adequados para cada tipo de relação comercial que seu negócio possa ter (investidores, usuários, fornecedores/manufaturadores).

Além disso, pode ser interessante incluir um mecanismo para penalizar a quebra de contrato para facilitar o processo de reparação por dano. No post Fuja das pegadinhas do Non-Disclosure Agreement, mencionamos, a título de cláusula penal, a instituição de multa de caráter compensatório. Não costuma ser fácil convencer a outra parte a aceitar a inclusão de cláusula penal, mas vale a pena a tentativa.

Se a relação com o fornecedor/manufaturador/parceiro ainda estiver em fase de negociação, como já pontuamos em Memorando de Entendimentos I: afastando a ameaça fantasma, firmar um memorando de entendimentos é uma excelente opção para garantir o alinhamento de expectativas e para garantir a segurança das relações comerciais, estabelecendo as bases para a futura relação que as partes pretendem constituir.

O caso Cambridge Satchel Company vs. Zatchels não foi o primeiro e nem será o último episódio de (aparente) violação ao design do contratante por manufaturador e de quebra de confiança. Esse tipo de situação faz parte do risco no negócio, mas diz respeito a um tipo de risco que pode ser consideravelmente mitigado pelo uso inteligente e eficaz de instrumentos contratuais bem redigidos.